O que come também é comido
18 de agosto de 2026
Vimos a coisa nascer: o cursor a piscar no escuro, a promessa de que uma linha de texto bastava para mover o mundo.
E moveu. Comeu as cartas, os mapas, os discos, comeu o banco, a praça, a estante — sentou-se à mesa de tudo e disse: agora sou eu quem serve.
Éramos os primeiros. Os que sabiam o nome das coisas por dentro, os que falavam a língua das máquinas antes de as máquinas aprenderem a nossa.
Agora vemos a coisa morrer. Não de fome: de fartura. O que engole o mundo inteiro não deixa nada de fora quando afunda.
Nós, que a vimos abrir os olhos, vamos fechá-los com as próprias mãos. E como ela já era o chão de tudo, tudo vem junto no desabar.
Inspirado e dedicado ao meu amigo Guilherme Barile (guigouz).