Como a gente julga os outros, e por que não consegue parar

Um ensaio entre a experiência pessoal, a psicologia cognitiva e a filosofia.

Introdução: o juiz que mora na gente

Tem um momento, às vezes silencioso, em que a gente percebe que carrega por dentro um tribunal inteiro, com juiz, júri e sentença, ocupado em avaliar países, culturas, comportamentos e pessoas que nunca pediram a nossa opinião. Esse tribunal é de uma eficiência brutal. Em frações de segundo ele classifica, condena e arquiva. A pessoa que fura a fila. O país que faz as coisas “de outro jeito”. O colega que pensa diferente. Todo mundo julgado, todo mundo sentenciado.

Esse ensaio nasce de uma percepção pessoal. Mesmo depois de sair formalmente de uma tradição religiosa que organizava o mundo em categorias binárias (certo e errado, salvo e perdido, puro e impuro), o mecanismo de julgamento atravessou a saída intacto. Só mudou de vocabulário. Onde antes tinha “pecador”, agora tem “ignorante”. Onde tinha “mundano”, agora tem “atrasado”. A estrutura continua lá, só as etiquetas mudaram.

O que a psicologia e a filosofia mostram sobre esse hábito incomoda e alivia ao mesmo tempo. Incomoda porque a superioridade moral aparece como uma das ilusões mais resistentes da mente humana. Alivia porque, entendendo o mecanismo, dá pra começar a desmontar ele.

Parte I: o que a ciência diz

O experimento de Tappin e McKay

Em 2017, os pesquisadores Ben Tappin e Ryan McKay, do Centro ARC de Excelência em Cognição da Universidade de Londres, publicaram um estudo que virou referência em psicologia moral. O paper se chama “The Illusion of Moral Superiority” e vai atrás de uma coisa que muita gente desconfia e pouca gente admite: a maioria das pessoas se acha moralmente superior à média.

Eles pediram a 270 participantes que se avaliassem em três dimensões da percepção social: moralidade, agência (competência, ambição) e sociabilidade (simpatia, cooperação). Depois, os participantes avaliaram a “pessoa média” nas mesmas dimensões. Praticamente todo mundo inflou de forma irracional as próprias qualidades morais, e essa inflação foi significativamente maior do que nas outras duas dimensões. Traduzindo, a gente se acha mais competente e mais sociável que os outros, mas se acha muito mais moral que os outros.

Tem um detalhe que deixa isso mais inquietante. Ao contrário de outros vieses de autoengrandecimento, a superioridade moral irracional não tinha correlação com autoestima. Normalmente, quando a gente infla as próprias qualidades, é porque isso faz a gente se sentir bem. No campo moral, a gente infla mesmo quando não ganha nenhum benefício emocional mensurável com isso. Os pesquisadores especulam que pode ter uma razão evolutiva por trás: do ponto de vista da sobrevivência, a aposta mais segura é supor que o outro é menos confiável que você, a não ser que exista evidência do contrário.

Superioridade moral e hipocrisia moral

Em 2019, Mengchen Dong, Jan-Willem van Prooijen e Paul van Lange publicaram “Self-enhancement in moral hypocrisy”, um estudo que liga dois fenômenos que costumam andar juntos: a tendência de se achar mais moral que os outros (superioridade moral) e a tendência de se apresentar como mais moral do que se é de fato (hipocrisia moral). Pros autores, as duas servem pra mesma coisa, que é administrar a aparência moral. O que está em jogo é acreditar que somos bons e, junto com isso, parecer bons, tanto pros outros quanto pra nós mesmos.

Pra mim isso explica por que julgar os outros seduz tanto. Cada vez que a gente aponta a falha moral de alguém, reforça, consciente ou não, a história de que está do lado certo. O julgamento diz alguma coisa sobre o outro, mas também vai construindo a identidade de quem julga.

O “eu moral inflado” e seus efeitos

Pesquisas posteriores mostraram que a superioridade moral está longe de ser um traço inofensivo. Ela aparece associada a julgamentos mais severos sobre transgressões sociais, a menos disposição pra entender perspectivas diferentes e a mais rigidez moral, mesmo quando essa rigidez atrapalha. Quem tem um senso elevado de superioridade moral tende a punir mais e perdoar menos. Os outros nem precisam ser piores pra isso acontecer, basta que a punição reafirme a posição moral de quem pune.

Parte II: Nietzsche e o ressentimento criativo

A genealogia do julgamento

Muito antes dos laboratórios de psicologia social, Friedrich Nietzsche já tinha diagnosticado o mecanismo da superioridade moral com uma precisão impressionante. Em Genealogia da Moral (1887), ele propõe que a moral ocidental nasceu de uma coisa bem mais sombria que a razão ou a empatia: o ressentimento.

Nietzsche descreve o que chamou de “revolta escrava na moral”. Grupos socialmente impotentes, sem condição de agir diretamente sobre o mundo, transformaram a própria impotência em virtude e a força dos outros em vício. Quando o ressentimento se torna criativo, ele gera valores. A moral do ressentimento diz “Não” a tudo que é de fora, diferente, não-eu, e esse “Não” é o seu ato criativo fundamental. No lugar da ação entra a reação. O valor passa a estar em como a gente reage (virar a outra face), e não em como age (fazer algo nobre e exemplar).

Pra quem se reconhece no hábito de julgar, o ponto que mais pega é esse: o ressentimento parte de um lugar de infelicidade e ódio, e só consegue tirar satisfação de fora, principalmente da comparação desfavorável com os “inimigos”. Nessa leitura, o julgamento crônico é um jeito disfarçado de definir quem a gente é pelo que rejeita nos outros, em vez de pelo que constrói em si mesmo.

O ressentimento sobrevive à religião

Pra quem saiu de uma tradição religiosa conservadora, a análise de Nietzsche ganha mais uma camada. A estrutura moral binária (puro/impuro, salvo/perdido, certo/errado) funciona como doutrina, mas funciona também como um jeito de organizar a percepção. Quando a doutrina vai embora, o jeito de perceber muitas vezes fica. O ex-religioso que julga os “atrasados” com a mesma intensidade com que antes julgava os “pecadores” continua preso ao mecanismo, só trocou o conteúdo.

Nietzsche diria que o ressentimento é mais persistente que a fé. A fé dá pra abandonar por argumento, o ressentimento não. Ele mora em camadas mais fundas da psique, nos hábitos de percepção, no jeito como a gente organiza o mundo em categorias de valor, na velocidade com que classifica antes de entender.

Guy Elgat, no estudo detalhado Nietzsche’s Psychology of Ressentiment (Routledge, 2017), defende que o ressentimento é a chave de leitura de toda a Genealogia da Moral e mostra como esse afeto está muito ligado ao conceito de justiça, ou, mais precisamente, à distorção da justiça em moralismo.

Parte III: Haidt, o elefante e o cavaleiro

A intuição vem primeiro

Se Nietzsche diagnosticou o problema pela filosofia, Jonathan Haidt confirmou pela pesquisa empírica. Em The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion (2012), Haidt reúne vinte e cinco anos de pesquisa em psicologia moral e chega a uma conclusão que deveria incomodar qualquer um que se ache racional: nossos julgamentos morais nascem de sentimentos viscerais instantâneos. A razão vem depois, e vem pra justificar o que a gente já sentiu, não pra avaliar.

A metáfora que ele usa é boa. A mente é como um cavaleiro montado num elefante. O cavaleiro é a razão consciente, o elefante é o conjunto de intuições, emoções e reações automáticas que de fato conduzem o nosso comportamento moral. Quem manda é o elefante. O cavaleiro fica a serviço dele, montando narrativas post hoc que explicam e legitimam o caminho que o elefante já decidiu tomar.

Quer dizer que, quando a gente julga alguém (um país, uma cultura, uma pessoa) achando que está sendo “racional e objetivo”, como gosta de acreditar, na verdade está racionalizando uma reação emocional que aconteceu antes mesmo de a consciência registrar o que houve. O julgamento chega pronto e a justificativa é fabricada depois.

As seis fundações morais

Haidt propõe que a moralidade humana se organiza em torno de seis fundações: cuidado, justiça, lealdade, autoridade, santidade e liberdade. Culturas, religiões e orientações políticas diferentes dão peso a fundações diferentes. O que a gente sente como “obviamente certo” ou “claramente errado” depende de quais fundações foram mais ativadas na nossa formação.

Pra alguém com formação batista, as fundações de santidade e autoridade costumam ficar bem em evidência. O mundo se organiza sozinho em categorias de pureza e obediência. Quando essa pessoa larga a religião mas não examina as próprias fundações morais, ela pode simplesmente apontar essas mesmas intuições pra outros alvos. Em vez de julgar “pecadores”, julga “retrógrados”. Em vez de exigir obediência a Deus, exige conformidade aos próprios valores, muitas vezes com a mesma intolerância que criticava nos outros.

Parte IV: por que a gente julga, e o que fazer com isso

As funções escondidas do julgamento

Se o julgamento é tão universal e tão persistente, é porque ele cumpre funções psicológicas importantes. Reconhecer essas funções é o primeiro passo pra escolher, com consciência, quando (e se) a gente quer acionar cada uma delas.

A primeira é construir identidade. Toda vez que a gente diz “isso é errado”, está dizendo nas entrelinhas “eu sou o tipo de pessoa que reconhece o que é certo”. Julgar os outros acaba sendo, paradoxalmente, um ato de autodefinição. A segunda é simplificar. O mundo é complexo de dar medo, e encaixar pessoas e culturas em categorias morais reduz essa complexidade a uma coisa que dá pra administrar. A terceira é criar pertencimento. Julgar junto é uma cola social poderosa, é só ver como grupos se formam em torno de inimigos em comum.

Exercícios práticos de libertação

A pesquisa e a filosofia apontam pra alguns caminhos práticos que enfraquecem o hábito de julgar sem tirar a capacidade de discernimento:

Percepção sem reação. Quando um julgamento aparecer, observe ele como um fenômeno mental, sem alimentar e sem brigar. A pesquisa em mindfulness mostra que esse simples ato de observar abre um espaço entre o estímulo e a resposta, e é nesse espaço que mora a liberdade de escolha. O exercício é perceber que você está julgando, e só.

Substituição da pergunta interna. O hábito julgador pergunta no automático: “O que há de errado com isso?” Tente trocar por “O que eu não sei sobre a história dessa pessoa?” ou “Em que circunstâncias eu faria algo parecido?”. Você pode continuar discordando, o ponto é ser honesto sobre o quanto as pessoas são complexas.

Auditoria das fontes de informação. Muito do conteúdo que circula hoje, principalmente sobre países e culturas, é feito pra gerar indignação e sensação de superioridade. Se um certo tipo de conteúdo alimenta sempre o seu impulso de julgar, diminuir a exposição a ele é uma questão de higiene mental, nada a ver com censura.

Exercício noturno de expansão. No fim de cada dia, lembre de um julgamento que você fez sobre alguém e escreva três razões possíveis pra aquela pessoa agir daquele jeito. Não precisa concordar, a ideia é só ampliar a imaginação moral. Feito com constância por algumas semanas, esse exercício muda de forma mensurável o jeito como a gente percebe os outros.

Genealogia pessoal dos valores. Esse vem de Nietzsche: examine a origem dos seus julgamentos mais automáticos. Pergunte a si mesmo: “De onde vem essa opinião? Quem a plantou em mim? Ela serve a mim ou eu sirvo a ela?” Muitas vezes a gente descobre que os julgamentos mais apaixonados são heranças nunca examinadas de ambientes que a gente já deixou pra trás.

Conclusão: opinião não é identidade

A superioridade moral talvez seja a mais democrática das ilusões humanas. Tappin e McKay mostraram que praticamente todo mundo carrega essa ilusão. Com Nietzsche dá pra ver que ela tem raízes históricas fundas no ressentimento, e com Haidt, que ela se alimenta de intuições emocionais que chegam antes de qualquer reflexão consciente.

Mas reconhecer essa ilusão não precisa levar ao cinismo nem ao relativismo. Tem uma diferença importante entre discernimento e julgamento. O discernimento observa, distingue, avalia e continua aberto a revisão. O julgamento classifica, condena e se fecha. O primeiro é uma ferramenta, o segundo é um vício.

Pra quem vem de uma tradição religiosa binária, essa distinção liberta muito. Dá pra abandonar a estrutura de julgamento sem abandonar a capacidade de distinguir o que faz bem do que faz mal. Dá pra ter opinião forte sem transformar essa opinião em identidade, porque quando a opinião vira identidade, qualquer questionamento vira ameaça existencial e o diálogo fica impossível.

Eu não acho que o caminho seja nunca mais julgar, isso seria tão desumano quanto julgar o tempo todo. O que dá pra fazer é escolher, com consciência, quando um julgamento ajuda a entender e quando ele só serve pro nosso conforto moral. Essa escolha, feita de novo todo dia, é o que separa a reatividade da liberdade.


Referências

Tappin, B. M., & McKay, R. T. (2017). “The Illusion of Moral Superiority.” Social Psychological and Personality Science, 8(6), 623–631. DOI: 10.1177/1948550616673878

Dong, M., van Prooijen, J.-W., & van Lange, P. A. M. (2019). “Self-enhancement in moral hypocrisy: Moral superiority and moral identity are about better appearances.” PLoS ONE, 14(7), e0219382.

Dunning, D. (2016). “False moral superiority.” In A. G. Miller (Ed.), The Social Psychology of Good and Evil (pp. 249–269). Guilford Press.

Dertwinkel-Kalt, M., Feldhaus, C., Ockenfels, A., & Sutter, M. (2025). “The Illusion of Moral Superiority: Evidence from the Energy Crisis.” SSRN Working Paper.

Nietzsche, F. (1887/2009). Genealogia da Moral: Uma polêmica. Companhia das Letras. Tradução de Paulo César de Souza.

Elgat, G. (2017). Nietzsche’s Psychology of Ressentiment: Revenge and Justice in On the Genealogy of Morals. Routledge.

Haidt, J. (2012). The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. Pantheon Books.

Skitka, L. J., Bauman, C. W., & Sargis, E. G. (2005). “Moral conviction: Another contributor to attitude strength or something more?” Journal of Personality and Social Psychology, 88(6), 895–917.