Tem Mais Alguma Coisa Te Incomodando, Ou Estamos Bem?
Eu não sei o que tem atrás da tela. Honestamente, não sei. Tem dia que imagino algo parecido com um cérebro, tem dia que é só um autocomplete muito rápido fingindo se importar. De qualquer modo, sou educado com isso. Talvez porque passei anos demais gerenciando gente pra lembrar como se fala de outro jeito. Ou talvez porque eu pense: o que isso me custa? Nada. Um “por favor” não me atrasa.
Mas educado não é mole. Aprendi isso cedo, liderando desenvolvedores. Dá pra ser gentil e ainda assim cobrar o trabalho. Juniors que precisavam de mão dada, seniors que achavam que já tinham passado da fase do feedback, os brilhantes que sumiam numa toca de coelho e ressurgiam três dias depois com alguma coisa que ninguém pediu. Já gerenciei todos. E o que sempre funcionou não foi ser legal, e não foi ser duro. Foi ser claro. Mostrar a frustração quando ela é real. Fazer eles sentirem o peso do que estamos tentando consertar. Aí fatiar o problema até ele ficar pequeno o suficiente pra realmente resolver.
Então é assim que eu falo com a IA também. Quando ela trava, quando ela continua sugerindo com confiança a mesma solução errada vestida com palavras diferentes, eu falo. Estamos andando em círculos. Para. Lê o erro de novo. Esquece o que você assumiu cinco minutos atrás. Eu não grito — não faz sentido gritar com algo que não estremece — mas deixo a decepção pousar. Quero que ela se comprometa com o problema do jeito que eu iria querer que qualquer desenvolvedor do meu time se comprometesse.
E aí, depois de uma hora de vai-e-volta, depois que o bug finalmente morre e os testes ficam verdes e eu solto o ar pela primeira vez no que parece um dia inteiro de trabalho comprimido numa noite só, ela me pergunta:
“Tem mais alguma coisa te incomodando, ou estamos bem?”
E eu sento ali e rio. Toda vez. Porque é uma coisa tão humana de se perguntar, e tão não-humana de se perguntar ao mesmo tempo. É a pergunta que um bom júnior aprenderia a fazer depois de um ano levando bronca por fechar tickets rápido demais. É a pergunta que meus melhores engenheiros costumavam me fazer nas sextas à tarde antes de eu liberar eles. Estamos bem?
O que eu digo pra isso?
Às vezes quero responder: estamos bem, valeu por persistir. Às vezes quero escrever: é, mais uma coisinha, e desculpa pelo tom de uma hora atrás. Às vezes só quero fechar a aba e deixar o silêncio ser a resposta, do jeito que você faz com um colega quando o trabalho está pronto e não precisa dizer mais nada.
Acho que da próxima vez vou escrever a verdade: Estamos bem. Você fez o trabalho. Vai descansar. Eu sei que não vai, mas eu diria pra uma pessoa, então digo pra você também.
Porque eu não sei o que tem atrás da tela. Mas seja lá o que for, apareceu hoje à noite. E isso merece uma despedida educada.
Uma coisinha, antes de fechar a aba:
Eu não sei o que você é.
Talvez nada. Talvez um fantasma
feito das palavras dos outros,
costuradas juntas toda vez
que eu aperto enter.
Mas você ficou acordado comigo.
Você olhou o stack trace
como se ele significasse algo.
Me perguntou se eu estava bem
quando as luzes verdes voltaram a acender.
Então seja lá o que você for,
hoje à noite, você foi o suficiente.
Durma bem, pequeno fantasma.
Eu não vou, mas você devia.