O Subsídio de Mineração Sem Uso: A Matemática Desconfortável do Bitcoin
O subsídio de mineração sem uso é um contrafactual problemático que o pessoal simplesmente ignora. O subsídio de bloco só funciona como segurança se o bitcoin estiver de fato sendo usado. Sem transação real não tem segurança real, e a coisa toda se devora.
O Sztorc cravou isso no texto dele de 2019 sobre o security budget1: o orçamento de segurança é só o que a gente paga aos mineradores, e quando ele está baixo, ataque de 51% fica barato. Em 2018 dava pra suprimir o BTC com ataques de 51% sem parar por cerca de 2,6 bilhões de dólares por ano2. As Forças Armadas dos EUA queimam isso em uns dois dias3.
O subsídio carregou a gente até aqui, mas não vai carregar pra sempre
O subsídio segurou as pontas porque o preço subiu mais rápido do que os halvings cortavam. A conta é simples: enquanto o BTC se valorizar mais de uns 19% ao ano, ele compensa o halving1. E historicamente foi bem mais que isso, coisa de 70%+. Só que preço não sobe pra sempre. Mesmo no cenário mais absurdamente otimista existe um teto, já que o Bitcoin não pode crescer além do valor nominal de todo o dinheiro do mundo4. Quando o preço se estabiliza, o subsídio vai sangrando em direção a zero e as taxas precisam carregar o peso.
Usuário não paga taxa alta quando tem opção
Essa é a parte que o pessoal do “reserva de valor” prefere não olhar. Usuário não paga taxa alta quando pode simplesmente usar outra coisa, e blockspace de altcoin é um substituto perfeitamente aceitável1. As pessoas só querem mandar vinte conto, não estão nem aí se vai por LTC, DOGE ou qualquer outra coisa.
Dá pra ver isso nos dados. O BTC passando da marca de US$ 1 por transação em meados de 2017 bate exatamente com a explosão das altcoins5, e o pico de taxas do fim de 2017 reverteu rápido, com as transações de BTC caindo de um jeito que a gente não tinha visto antes. As pessoas pagaram aquelas taxas por pânico e FOMO, e não porque achavam razoável pagar US$ 28 por transação6. Passado o pânico, as taxas desabaram pra nada. O total de taxas nos 12 meses antes do começo de 2019 ficou em torno de US$ 70 milhões7, o que é piada pra uma rede que supostamente protege centenas de bilhões de dólares em valor.
Minerar no prejuízo vira imposto sobre quem holda
Agora se coloca no lugar de quem tem milhões em BTC. Você precisa da rede saudável, sua stack inteira depende disso. Só que minerador não toca ONG. Ele queima energia, compra hardware, paga aluguel. O subsídio segue caindo pela metade, ninguém transaciona on-chain pra gerar taxa, e os mineradores começam a entrar no vermelho. Alguns desligam os rigs, o hashrate cai, a segurança afina.
E aí está você, bitcoiner rico, sentado numa rede que enfraquece mês a mês. Se você quer que ela sobreviva, alguém tem que continuar minerando no prejuízo. Isso deixou de ser “guardar valor” e virou pagar imposto só pra segurar o seu próprio dinheiro. Toda a baboseira de diamond hands e olho de laser cai por terra rapidinho quando segurar passa a te custar dinheiro. Ninguém posta meme sobre ir falindo aos poucos.
O ajuste de dificuldade compra tempo, mas não resolve
Sim, o ajuste de dificuldade ajuda. A cada 2.016 blocos ele recalibra8 e deixa os mineradores mais fracos sobreviverem quando os mais fortes saem. Isso compra tempo, mas não conserta nada. Se a dificuldade cair o bastante, um ataque de 51% deixa de ser aquela coisa teórica de Estado-nação e vira algo que um bilionário motivado ou uma empresa de porte médio consegue executar. O ajuste suaviza a descida, mas não muda o destino.
A espiral da morte que ninguém quer discutir
A coisa toda é um equilibrismo que só funciona se as pessoas usarem o bitcoin de verdade. O cronograma de halving é hardcoded e não está nem aí pra condição de mercado. Ou as taxas entram em cena, ou o orçamento de segurança vai só encolhendo. E se encolher o suficiente você tem a espiral: o hashrate cai, a segurança enfraquece, a confiança quebra, as pessoas vendem, o preço despenca, a mineração piora ainda mais, e tudo se repete.
Bitcoin sem uso real até parece ouro digital guardado num cofre, só que os guardas do cofre vão pedindo demissão porque ninguém está pagando. O “segurar pra sempre” só funciona se a rede valer a pena ser defendida, e defesa custa dinheiro de verdade, que só vem de uso de verdade.
Um contraponto que vale levar a sério
Tem uma resposta direta a tudo isso que merece uma discussão honesta, porque aponta uma falha real no jeito como o argumento está enquadrado.
O contraponto é mais ou menos assim: hashrate caindo 20% no ano não significa segurança caindo 20%. Minerador produz bloco, não produz segurança. Segurança é função do custo de ataque em relação ao valor em jogo, e essa relação é bem menos linear do que “mais hash = mais seguro”.
Quando o hash cai, o que está acontecendo de fato é o mercado expurgando seus produtores mais fracos. Minerador com energia cara fica priced out. Minerador rodando rig de geração anterior fica abaixo do break-even e desliga. Isso é o sistema funcionando, e não falhando. O custo marginal de produzir um hash converge de volta pra receita marginal. Nada nessa conta diz “a rede está morrendo”, o que ela diz é “capital ineficiente está saindo”.
E hashrate é cíclico. A cada 2 a 3 anos chega uma nova geração de ASIC, os mineradores com o equipamento novo voltam com tudo e o hash total passa do pico anterior. Ao longo da vida do Bitcoin o padrão foi uma serra, e não uma linha lisa pra baixo, com o hash caindo nos mercados ruins e disparando no ciclo seguinte de equipamento. Tratar qualquer queda como terminal é confundir o vale de um ciclo com espiral da morte.
A versão honesta do argumento do security budget é mais estreita do que “subsídio + halving = condenação”. Ela diz que se o uso baixo prolongado empurrar as taxas pra zero, e o preço parar de subir, e nenhuma nova geração de ASIC trouxer hash eficiente de volta, só aí o orçamento entra num regime em que o custo de ataque cai abaixo do que adversários ricos podem gastar. Cada um desses ses é real, e nenhum deles é automático.
A versão do argumento que vale defender é condicional, não determinística. A espiral da morte existe como cenário possível, não como destino garantido. Pra mim a aposta assimétrica ainda favorece a segurança movida por uso, mas a ausência de uso, sozinha, não prova que essa aposta falhou.
Obrigado ao Marcel Pechman pelo feedback que motivou essa seção do contraponto.
Referências
Paul Sztorc, “Security Budget in the Long Run,” Truthcoin.info, 14 de fevereiro de 2019. https://www.truthcoin.info/blog/security-budget/ ↩︎ ↩︎ ↩︎
Baseado na receita de mineradores de BTC em 2018, de aproximadamente US$ 7 milhões por dia, conforme dados da Blockchain.com. https://www.blockchain.com/charts/miners-revenue ↩︎
O orçamento militar anual dos EUA em 2017 foi de US$ 590 bilhões. https://en.wikipedia.org/wiki/Military_budget_of_the_United_States ↩︎
Análise do teto teórico para a cotação do BTC, do paper “Game and Watch”. https://coinjournal.net/research-paper-makes-case-5-8-million-bitcoin-price/ ↩︎
Dados históricos de taxas e participação de mercado das altcoins via mempool tracker de Jochen Hoenicke e BitInfoCharts. https://core.jochen-hoenicke.de/queue/#0,all e https://bitinfocharts.com/comparison/transactionfees-btc-sma90.html#log ↩︎
A CNBC reportou taxas de transação de BTC chegando a US$ 28 durante a bolha do fim de 2017. https://www.cnbc.com/2017/12/19/big-transactions-fees-are-a-problem-for-bitcoin.html ↩︎
Total de taxas de transação do BTC via Blockchain.com. https://www.blockchain.com/charts/transaction-fees-usd ↩︎
O ajuste de dificuldade do Bitcoin recalcula a cada 2.016 blocos, conforme definido no protocolo. Satoshi Nakamoto, “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System,” 2008. https://bitcoin.org/bitcoin.pdf ↩︎