Como eu conheci o Bitcoin
Eu não estava procurando o Bitcoin. Ele me encontrou no meio de um problema de engenharia.
Entre o meio e o final de 2010 eu era chefe de arquitetura de um projeto chamado Mirror. O propósito era simples de explicar e difícil de construir: um sincronizador de arquivos distribuído, sem servidor central. Qualquer client deveria carregar o histórico completo, e a resolução de conflitos seria delegada ao usuário.
Eu já era obcecado por computação distribuída dentro das limitações da época. Adepto ferrenho dos design patterns. Fã da Barbara Liskov. Estudava muito em cima do SICP. Queria construir sistemas que não pedissem permissão a nenhum ponto central para funcionar.
Com meu time, criamos o algoritmo que batizamos de EAI — como a pergunta em português, um “e aí?” entre máquinas. Era isso que os nós faziam: trocavam suas listas de arquivos, comparavam os hashes e validavam as diferenças. Simples e direto. No segundo estágio, inspirados na librsync, dividíamos os arquivos em blocos com hash e transferíamos apenas o delta. Com isso ganhávamos eficiência na transferência e, de quebra, um histórico granular de cada arquivo.
Foi numa dessas otimizações que a história virou.
Eu precisava de um algoritmo de hash mais ágil que o MD4 que usávamos na nossa librsync customizada. Fui pesquisar alternativas. Encontrei o BLAKE. E pelo BLAKE cheguei ao Bitcoin. E pelo Bitcoin cheguei ao paper.
Eu já tinha uma certa preparação para aquele encontro sem saber. Usava Linux desde o começo de 1996 — Conectiva e Debian, quando instalar um sistema operacional livre era quase um ato de fé. Participava das cerimônias de assinatura de chaves públicas que a comunidade organizava. Criptografia fazia parte da minha vida, mas confesso: era mais diversão do que convicção. Não levava tão a sério como levo hoje.
Quando li o paper do Satoshi, fiquei atraído por duas coisas.
A primeira foi a arquitetura. A elegância da prova de trabalho resolvendo o consenso em uma rede P2P era bonita de se ver. Era o tipo de solução que eu admirava — aquelas que parecem óbvias depois de lidas, mas que ninguém tinha pensado antes.
A segunda foi o problema econômico: a separação do dinheiro e do Estado. Algo que, depois de todos esses anos, percebo que se tornou quase um ato falho na narrativa do ecossistema. Mas naquele momento, para mim, era revolucionário.
Acontece que eu não trabalhava num vácuo acadêmico. Eu trabalhava para bancos. E para a Bolsa de Valores de São Paulo.
Tinha proximidade diária com os problemas técnicos e de negócio do sistema financeiro — as ineficiências, as camadas de intermediação, os custos absurdos de reconciliação. E de repente tinha nas mãos o paper de um sistema que propunha eliminar tudo isso pela raiz.
Claro que eu não consegui ficar quieto.
Andava pelos corredores da Bovespa — hoje B3 — falando avidamente sobre Bitcoin. Dizia que um dia eles se renderiam. Me chamaram de louco. Não preciso dizer que estavam errados.
Por volta de 2014 fui até Nova York porque me falaram que havia pessoas trocando bitcoin presencialmente em uma praça. Além disso, tinha um conhecido trabalhando em uma exchange. Nessa altura eu já carregava cicatrizes: havia perdido alguns bitcoins no hack do Mt. Gox. Do episódio me restou uma carta em japonês que guardo até hoje como relíquia de guerra.
Em Nova York ajudei na divulgação e na operação do Bitcoin Center, onde conheci muita gente que depois virou nome conhecido do ecossistema. Era um ambiente elétrico. Ninguém ali tinha certeza de nada, mas todo mundo tinha convicção de que algo grande estava acontecendo.
De lá para cá a estrada foi longa e cheia de curvas.
Ajudei a criar a primeira stablecoin brasileira. Liderei times em projetos diversos de blockchain. Contribuí na construção de propostas ligadas ao BIP 300. Em 2020, co-fundei um protocolo para derivativos de hashrate. Em meados de 2021, escrevi um Lisp para circuitos de zero-knowledge usando Groth16 e Bellman — porque às vezes a melhor forma de entender uma tecnologia é construir ferramentas para ela.
Co-fundei a CS Digital, recentemente adquirida e listada na Nasdaq.
Visitei inúmeras conferências. Conheci centenas de pessoas nesse ecossistema. Algumas brilhantes, algumas perdidas, todas movidas por alguma versão da mesma inquietação que me pegou naquela tarde de 2010 quando eu só queria um hash mais rápido que o MD4.
Olhando para trás, o que me impressiona não é o tamanho da jornada. É o fato de que ela começou com um problema técnico pequeno, específico, mundano. Eu não estava tentando mudar o sistema financeiro. Estava tentando sincronizar arquivos mais rápido.
Mas é assim que as coisas acontecem, não é? Você puxa um fio e descobre que ele está costurado no tecido inteiro.