Tecnofeudalismo, a rebelião do código aberto, a saga estranha do Twitter, e por que sua próxima IA provavelmente deveria morar na sua própria máquina.


Nem Toda Tecnologia É Ruim

Vamos começar com algo óbvio que as pessoas insistem em esquecer. O fogo é uma tecnologia. Cozinhou nossa comida, iluminou nossas cavernas, forjou nossas ferramentas e nos juntou em comunidades. Ninguém era dono do fogo. Ninguém cobrava aluguel por ele. Ele simplesmente era. Uma força que pertencia a quem soubesse acendê-la.

Avance alguns milhares de anos e a tecnologia parece muito diferente. Não porque as ferramentas sejam más, mas porque a posse delas se concentrou em pouquíssimas mãos. Esse é o argumento central do tecnofeudalismo, termo popularizado por Yanis Varoufakis, e basicamente afirma que as grandes plataformas de tecnologia foram além do capitalismo, para algo mais próximo do feudalismo medieval. A Amazon não apenas vende produtos, ela é dona do próprio mercado. O Google não apenas te ajuda a buscar, ele é dono do mapa de todo o conhecimento humano. A Apple não apenas fabrica celulares, ela controla um jardim murado onde milhões de desenvolvedores precisam trabalhar e pagar trinta por cento pelo privilégio de estar lá dentro.

O problema nunca foi a tecnologia. O problema é quem segura as chaves.


A Rebelião GNU e um Estudante Finlandês que Cansou

Muito antes de qualquer um usar a palavra tecnofeudalismo, um programador chamado Richard Stallman viu o perigo chegando. Em 1983 ele lançou o Projeto GNU e, mais tarde, a Free Software Foundation, declarando que o software deveria respeitar a liberdade do usuário. A liberdade de executar, estudar, modificar e compartilhar. Stallman não estava só escrevendo código. Estava escrevendo uma espécie de constituição para o bem comum digital.

Aí, em 1991, aconteceu algo que mudou tudo, e veio de pura frustração. Um estudante de ciência da computação de vinte e um anos em Helsinque, chamado Linus Torvalds, não tinha como pagar pelo sistema operacional UNIX que queria usar, e a alternativa acadêmica chamada MINIX tinha restrições de licenciamento que o irritavam. Então ele fez o que engenheiros frustrados fazem. Escreveu o seu próprio. Seu post no newsgroup comp.os.minix foi quase um pedido de desculpas. Disse algo como “Estou fazendo um sistema operacional livre, só um hobby, não vai ser grande e profissional como o GNU.”

Veio a se tornar, sem exagero, um dos pedaços de software mais importantes já escritos. O kernel Linux combinado com as ferramentas GNU criou um sistema operacional livre que hoje roda na maioria dos servidores do mundo, em todos os celulares Android, em quase toda a internet e em quase todos os supercomputadores do planeta.

E aqui vem a parte que me faz sorrir toda vez que penso nela.

Linux hoje roda dentro do Windows. Tipo, literalmente dentro. O Windows Subsystem for Linux da Microsoft, lançado em 2016, te permite rodar um ambiente Linux completo de dentro do Windows. A mesma Microsoft que um dia chamou Linux de “câncer” e código aberto de “antiamericano” hoje envia um kernel Linux com seu próprio sistema operacional. Em maio de 2025 eles foram além e abriram o código de boa parte do próprio WSL.

Se isso não é o povo vencendo, eu não sei o que é. A catedral não apenas perdeu para o bazar. A catedral abriu as portas e convidou o bazar pra entrar.


O Pássaro que Virou um X

Se Linux é a história do aberto vencendo, a história do Twitter é um aviso sobre o que acontece quando um espaço comum digital não é, na verdade, um espaço comum.

O Twitter foi a coisa mais próxima de uma praça pública que a internet já teve. Era bagunçado, caótico, às vezes brilhante. Jornalistas davam furos lá. Movimentos como a Primavera Árabe se organizaram lá. Pessoas comuns conseguiam falar com pessoas poderosas. Não era perfeito, mas dava a sensação de ser nosso de algum modo importante, porque nenhuma pessoa só parecia controlar a conversa.

Mas a verdade é que sempre tinha alguém. Antes de Musk aparecer, o Twitter já havia se tornado uma ferramenta de controle de narrativa. Os chamados Twitter Files, divulgados no fim de 2022 por jornalistas como Matt Taibbi e Bari Weiss, revelaram como a plataforma rotineiramente lidava com pedidos de moderação de conteúdo do Partido Democrata e de agências governamentais. A equipe de campanha de Biden sinalizava tweets para remoção e as respostas internas voltavam dizendo apenas “Resolvido”. O FBI tinha reuniões semanais com a equipe do Twitter antes da eleição de 2020. A supressão da matéria do New York Post sobre o laptop de Hunter Biden, em que o Twitter bloqueou os links e até impediu pessoas de compartilharem o artigo por mensagens diretas privadas, foi talvez o exemplo mais visível. Os próprios executivos do Twitter depois admitiram que aquilo foi um erro.

A questão aqui não é tomar lado na política americana. A questão é que uma plataforma tratada por milhões de pessoas como praça pública estava, em silêncio, operando como um ambiente gerenciado em que atores políticos podiam influenciar o que as pessoas viam e o que era enterrado. Esse é o problema das plataformas centralizadas, independentemente de qual partido se beneficie delas.

Em outubro de 2022 Elon Musk comprou o Twitter por 44 bilhões de dólares. O que se seguiu foi intenso. Demissões em massa de cerca de oitenta por cento do quadro, desmonte das equipes de moderação, verificação paga e a morte do logotipo do passarinho azul. Twitter virou X, rebatizado como um “app de tudo” no estilo do WeChat chinês. Os antigos problemas de censura foram substituídos por novos. Vieses diferentes, mesmo problema estrutural: uma pessoa agora era dona da praça.

As pessoas começaram a sair. Algumas foram para o Bluesky, plataforma descentralizada originalmente concebida pelo cofundador do Twitter Jack Dorsey e construída sobre o protocolo aberto AT. Outras foram para o Threads, a alternativa da Meta conectada ao Instagram. Em meados de 2025 o X tinha cerca de 132 milhões de usuários ativos diários, o Threads chegava perto de 115 milhões e o Bluesky havia passado dos 25 milhões.

E aí tem o Nostr. Se o Bluesky é a alternativa descentralizada polida, o Nostr é a versão crua e sem concessões. O nome significa “Notes and Other Stuff Transmitted by Relays”, mas também soa como a palavra latina “noster”, que significa “nosso”. Foi criado em 2020 por um desenvolvedor brasileiro de código aberto conhecido como fiatjaf, em resposta direta aos problemas de moderação no Twitter. Nostr não é um app, é um protocolo. Sua identidade é um par de chaves criptográficas. Suas mensagens são assinadas e distribuídas entre relays independentes. Nenhum servidor único pode te censurar, porque se um relay bloqueia seu conteúdo, outro carrega. O próprio Jack Dorsey investiu no Nostr. Edward Snowden o elogiou. Em 2026 ele já passou de 18 milhões de usuários em vários clientes como Damus, Primal e Amethyst.

A lição real de toda a saga do Twitter, do controle de narrativa sob a antiga gestão ao caos sob a nova, não é sobre qual plataforma é melhor. É que, quando uma praça digital é de propriedade privada, o dono pode botar fogo nela e renomear as cinzas quando bem entender. E antes de botar fogo, pode decidir em silêncio o que você tem permissão de dizer ali. Protocolos como Bluesky e Nostr estão tentando tornar isso estruturalmente impossível. Construir infraestrutura de comunicação que funcione como o e-mail, em que nenhuma empresa ou partido sozinho consegue controlar. Se vão conseguir, ainda não sabemos. Mas o impulso por trás deles é o mesmo que moveu Stallman e Torvalds. A infraestrutura da comunicação humana não deveria ser propriedade privada de ninguém.


Soma para a Era do Scroll

Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a população é mantida dócil não pela violência, mas pelo soma, uma droga que dá prazer instantâneo e mata qualquer desejo de questionar qualquer coisa. Huxley entendeu algo profundo. A tirania não precisa ser violenta. Ela só precisa ser confortável.

Agora olhe para o seu celular. Olhe para o scroll infinito. Os feeds algorítmicos desenhados para maximizar engajamento — o que é só uma maneira educada de dizer vício. As plataformas não precisam nos censurar, embora algumas censurem. Elas só precisam manter você rolando, reagindo, consumindo. Indignação funciona. Medo funciona. Lealdade tribal funciona. Compreensão, nuance e engajamento na comunidade local? Esses não geram cliques.

O ecossistema de mídia em que vivemos, social e tradicional, funciona como uma espécie de soma digital. Não nos deixa mais felizes, nos deixa mais ocupados. Enche nossa cabeça com crises do outro lado do planeta enquanto não sabemos o nome da pessoa que nos representa na câmara municipal. Nos inflama com política nacional enquanto a reunião do conselho escolar local fica vazia. Nos faz sentir informados ao mesmo tempo em que nos torna menos capazes da cidadania engajada que muda nossas vidas reais.

Não se trata de rejeitar as notícias ou enterrar a cabeça na areia. Trata-se de reequilibrar. Conheça seus vizinhos antes de saber o ciclo de indignação da semana. Vá a uma reunião local antes de postar sobre uma eleição estrangeira. O algoritmo não quer isso porque quer seus olhos, seu tempo, seus dados. Mas sua comunidade precisa da sua presença mais do que qualquer plataforma precisa do seu engajamento.

A gente devia se interessar mais pelo que acontece na nossa rua do que pelo que acontece no nosso feed.


A Defesa da IA Local

E isso nos leva à fronteira. Inteligência artificial.

Hoje o modelo padrão para IA é “nuvem primeiro”. Você digita uma pergunta, ela viaja até um data center, é processada no hardware de outra pessoa, e a resposta volta. Suas perguntas, seus documentos, seu trabalho criativo, tudo passa por uma infraestrutura que você não controla, de propriedade de empresas cujo modelo de negócio depende dos seus dados.

Isso é tecnofeudalismo aplicado ao próprio pensamento.

Mas algo interessante está acontecendo. A ascensão da IA local, modelos que rodam inteiramente no seu próprio dispositivo, pode ser a mudança mais importante desde o código aberto. Graças a avanços em compressão de modelo e à chegada de chips de IA especializados em hardware de consumo, rodar um modelo de linguagem capaz num laptop, ou até num celular, hoje é prático. Projetos abertos como Llama e Mistral tornam isso possível. Ferramentas como Ollama e LM Studio tornam isso acessível a qualquer um disposto a tentar.

Rodar IA localmente significa que seus dados nunca saem da sua máquina. Ninguém minera suas conversas. Nenhuma corporação treina sobre seus pensamentos privados. Nenhum governo pode intimar um log de servidor das suas perguntas. É soberania sobre sua própria inteligência, e isso importa.

A IA na nuvem tem seu lugar, claro. Mas a hipótese de que seu pensamento precisa ser roteado pelos servidores de outra pessoa merece ser questionada. O mesmo instinto que fez Stallman insistir no software livre, que fez Torvalds escrever seu próprio kernel, que tirou usuários do X em direção a algo mais aberto, se aplica aqui também. As ferramentas do pensamento deveriam pertencer a quem pensa.


Círculo Completo

O fogo não pertencia a ninguém. Era calor, comunidade, sobrevivência. Em algum ponto do caminho deixamos as tecnologias mais poderosas do nosso tempo virarem propriedades privadas que extraem aluguel das pessoas que dependem delas.

Mas o padrão da rebelião é igualmente antigo. GNU. Linux. Wikipédia. Bluesky. IA Local. Cada um é uma reafirmação da mesma ideia simples: as ferramentas das quais dependemos devem nos servir, não o contrário.

Da próxima vez que alguém te disser que a tecnologia é o problema, lembre essa pessoa do fogo. Depois pergunte de quem ele é.


“Estou fazendo um sistema operacional livre, só um hobby, não vai ser grande e profissional como o GNU.”

Linus Torvalds, 1991. Virou a espinha dorsal da internet moderna. Nunca subestime um estudante frustrado com um compilador.