A palavra companhia esconde uma refeição. Ela vem do latim companio, de com mais panis, “com pão”, e era assim que se chamava quem dividia o pão na mesma mesa. Antes de ser CNPJ, marca registrada ou linha de planilha, companhia era isso, gente sentada junto em volta da comida. A essência da palavra não cabe num servidor, não foi feita pra robô, e muito menos pra uma crença abstrata como o dinheiro. Na origem, companhia é uma coisa humana e calorosa.

Acho que vale lembrar disso justamente agora, quando quase tudo parece empurrar pro lado contrário.

A gente costuma contar a história do capitalismo como a de um sujeito que se fez sozinho: o mercado livre, esperto e autossuficiente, que não deve nada a ninguém. É uma boa lenda. Só que, olhando de perto, a coisa é outra. As primeiras grandes companhias, as Companhias das Índias, a holandesa e a inglesa, não nasceram em garagem nem da cabeça de gênio solitário. Nasceram de cartas régias, de monopólios concedidos pelo Estado, de exércitos privados autorizados pela Coroa. O tal mercado “livre” foi montado e sustentado pelo poder público desde o berço. Karl Polanyi já dizia que o mercado que se regula sozinho nunca existiu de verdade, sempre foi uma construção, defendida com lei e com força.

O capitalismo só esqueceu disso depois, quando já tinha músculo suficiente pra se achar independente. E foi mais ou menos aí que ele ficou cruel, do jeito que costuma ficar quem se convence de que não deve nada a ninguém.

Agora a paisagem mudou de novo, e talvez de um jeito mais profundo. Yanis Varoufakis chama o que a gente está vivendo de tecnofeudalismo. A ideia é simples e incômoda: as grandes plataformas deixaram de ser só empresas que vendem coisas e viraram território. São feudos digitais onde a gente mora sem perceber. O vendedor paga pedágio pra aparecer, o criador paga pedágio pra ser visto, o usuário entrega atenção e dados como quem entrega a colheita ao senhor da terra. O lucro do velho capitalismo deu lugar à renda, e renda é uma palavra feudal. A gente já nem compete num mercado, a gente paga pra usar o quintal dos outros.

É nesse cenário que entra a inteligência artificial, mudando o trabalho na frente dos nossos olhos. Aqui eu sou otimista, ou pelo menos quero ser. David Graeber escreveu um livro inteiro sobre os bullshit jobs, os empregos que não servem pra nada, funções inventadas que a própria pessoa, lá no fundo, sabe que podiam sumir amanhã sem o mundo sentir falta. Se a máquina assume o que nunca precisou existir, ótimo. Sobra tempo pro que importa: cuidar, criar, ensinar, consertar, conviver. Em tese, as pessoas teriam coisa melhor pra fazer no dia a dia.

Mas aí chega a pergunta que ninguém gosta de fazer em voz alta: o que vai ser das companhias?

Porque tem um problema sério pela frente, e ele se parece muito com uma coisa que eu chamaria de síndrome do escritório vazio. Tem o prédio sem gente, claro, que já existe, andares inteiros com a luz acesa e a cadeira vazia. Mas eu estou falando de uma coisa mais funda. Se uma companhia é, na raiz, gente partindo o pão junto, o que é uma companhia quando não tem mais ninguém na mesa? Quando a tarefa virou prompt, a equipe virou fila de chamadas de API e a reunião virou um relatório que se escreve sozinho, o que exatamente continua sendo “companhia” ali dentro? Fica a casca: a marca, o contrato, o fluxo de renda. Fica tudo, menos o pão.

Esse é o nó. A tecnologia pode esvaziar os empregos inúteis, e isso é bom. Mas, se a gente deixar ela andar no piloto automático do tecnofeudalismo, ela vai esvaziar também o que tinha de humano na ideia de trabalhar junto, e vai concentrar o pão na mão de pouquíssimos donos de plataforma, enquanto o resto fica olhando o feudo de fora.

A boa notícia é que nada disso está decidido. A gente esquece fácil, então vale repetir: o capitalismo nunca foi um fenômeno natural que aconteceu com a gente. Foi uma coisa que nós fizemos, com regras que nós escrevemos, sustentada por governos que nós elegemos. Se foi inventado, pode ser reinventado. As companhias foram criadas pra servir aos humanos, de um jeito ou de outro esse era o pacto. Quando elas param de servir, não tem natureza nenhuma falando ali. Tem uma escolha que alguém fez e que outro alguém pode desfazer.

Então a pergunta não é se a máquina vai mudar o trabalho, porque ela já está mudando. A pergunta é pra quem a gente vai partir o pão depois que ela mudar. Se a gente vai usar o tempo liberado pra construir companhias que voltem a significar alguma coisa, ou se vai assistir, de cadeira vazia, o pão ser servido só pra quem é dono da mesa.

Cabe a nós decidir. E, por enquanto, ainda cabe.