Minhas Reflexões sobre a Resiliência do Bitcoin: Hashcash, Controle de Energia, Hayek e o Caso a Favor de Versões Concorrentes
Outro dia vi um post do Adam Back no X que ficou na minha cabeça. Ele citou o John Gilmore, aquela ideia de que a internet enxerga a censura como dano e roteia em volta, e ligou isso direto ao Bitcoin: os dois sistemas são ingovernáveis, no melhor sentido da palavra. Não dá pra montar checkpoint permanente nem controlar de forma centralizada conteúdo ou transação no nível do protocolo. Quando alguém tenta barrar spam ou abuso com regra de cima pra baixo, em geral não funciona, porque o próprio design trata o controle como algo a ser contornado.
A parte que eu mais gostei foi quando ele disse que é exatamente por isso que o Hashcash existe como solução de mercado. Pra mim isso resume bem o que faz o Bitcoin diferente de tudo que veio antes.
O Hashcash foi uma invenção do próprio Adam Back, lá nos anos 90, pra combater spam de e-mail sem depender de terceiro confiável nem de filtro central. A ideia é simples e muito forte. Antes de mandar uma mensagem você tem que fazer um pouco de trabalho computacional, basicamente resolver um quebra-cabeça que consome tempo de CPU. Pra quem usa e-mail normalmente o custo é minúsculo. Pra quem quer mandar milhões de mensagens de spam fica caro muito rápido. Ninguém decide de forma central o que é spam, quem faz a filtragem é o mercado de computação.
Depois o Satoshi pegou esse conceito de proof-of-work e transformou no sistema de mineração do Bitcoin. E a mineração vai muito além de criar moeda nova, ela é um jogo econômico que protege a rede inteira. Os mineradores competem pra adicionar blocos, e o trabalho que eles fazem (energia mais hardware) deixa os ataques caros. É daí que vem a resistência do Bitcoin à censura e ao controle. Sempre achei isso muito elegante.
Ao mesmo tempo, ler aquele post me fez pensar numa vulnerabilidade real que me preocupa. Os governos controlam boa parte da infraestrutura de energia do mundo. Regulam usina, definem preço de eletricidade, taxam consumo e podem simplesmente proibir a mineração no país. Se a segurança do Bitcoin depende tanto de energia, será que um governo poderoso, ou um grupo de governos, conseguiria aos poucos tomar o controle da rede sufocando essa energia? Me parece um ponto único de falha num sistema que, no resto, é descentralizado.
Essa preocupação me levou direto ao Friedrich Hayek. Em A Desnacionalização do Dinheiro, de 1976, ele argumenta que o monopólio do governo sobre o dinheiro foi um erro histórico, e não uma necessidade. A proposta dele era deixar entidades privadas emitirem suas próprias moedas e competirem livremente no mercado. O dinheiro ruim, o que perde valor com inflação ou deixa de ser confiável, perderia usuários. O dinheiro bom, que guarda valor e serve bem às pessoas, ganharia adoção. A competição, movida pelo interesse próprio, faria um trabalho melhor do que qualquer autoridade central tentando administrar o dinheiro com boa vontade.
Gosto muito dessa conexão. O Bitcoin já me parece uma realização parcial da visão do Hayek, dinheiro privado competindo com moeda fiat estatal. Mas e se a gente levasse isso mais longe, com várias versões concorrentes do próprio Bitcoin, talvez até usando o mesmo algoritmo de hash, como o SHA-256? Um arranjo desses poderia deixar o sistema inteiro bem mais difícil de ser dominado por qualquer governo através de restrição de energia.
Imagina várias chains rodando em paralelo, todas com proof-of-work e com o mesmo algoritmo de mineração. Os mineradores ficariam avaliando o tempo todo qual chain dá mais retorno, considerando block reward, taxa de transação e dificuldade, e conseguiriam levar o hardware de uma chain pra outra com relativa facilidade. Isso cria um mercado fluido de segurança. Se uma chain sofre pressão regulatória forte ou um ataque, hashpower e usuários podem migrar pras outras, e nenhuma chain vira o único alvo que vale a pena atacar ou regular.
Esse tipo de competição tem vantagens claras. Coloca redundância no sistema e pressiona cada chain a inovar e a melhorar suas regras ou seus recursos de segurança pra atrair mineradores e usuários. Combina também com a ideia central do Hayek, de que a competição vai eliminando as opções piores com o tempo. E ataca direto a preocupação com o controle de energia, porque um governo teria que suprimir vários sistemas concorrentes ao mesmo tempo, o que é bem mais difícil do que mirar numa única rede dominante.
Claro que tem riscos, e o maior deles é o ataque de 51 por cento. Quando as chains compartilham o mesmo algoritmo de mineração, o hashpower delas é, de certa forma, intercambiável. Um minerador grande, ou um pool, na chain maior poderia desviar recursos por um tempo e ganhar controle majoritário de uma concorrente menor. E sairia relativamente barato, porque ele estaria pagando só o custo marginal daquele hashpower extra.
Isso já aconteceu na prática com redes proof-of-work menores. O Ethereum Classic sofreu vários ataques sérios de 51 por cento. Em janeiro de 2019 teve incidentes com reorganizações profundas da chain e cerca de 1,1 milhão de dólares em ETC gastos em duplicidade. Em agosto de 2020 vieram vários ataques em sequência. Num deles o atacante conseguiu roubar cerca de 807.000 ETC, uns 5,6 milhões de dólares na época, alugando hashpower num marketplace tipo NiceHash por cerca de 192.000 dólares. Um retorno enorme. Reorganizaram milhares de blocos e miraram exchanges que tinham creditado depósitos rápido demais.
Esses ataques funcionaram porque o Ethereum Classic era uma chain pequena que, na época, compartilhava recursos de mineração com a rede Ethereum, muito maior. Os atacantes conseguiam alugar ou redirecionar hashpower barato. Coisa parecida atingiu outras moedas menores ao longo dos anos, e o padrão é claro: rede pequena fica vulnerável quando dá pra alugar ou trazer hashpower das chains dominantes.
Na rede principal do Bitcoin a economia é bem outra. O hashrate está em torno de 900 a 950 exahashes por segundo em meados de 2026. Atacar isso em escala exigiria controlar uma quantidade enorme de hardware especializado e de energia, e o custo chegaria na casa dos bilhões de dólares mesmo por um período curto. A maioria dos atores, incluindo muitos governos, acharia isso economicamente destrutivo também pros próprios interesses.
E a gente tem dados bons, de eventos reais, sobre como o Bitcoin já lida com pressão energética. Em 2021 a China respondia por bem mais de 60 por cento do hashrate global. O governo implementou uma proibição ampla da mineração de criptomoedas, citando estabilidade financeira e preocupação com energia. O hashrate despencou da noite pro dia, com operações fechando ou fugindo do país. Num certo momento o hashrate total da rede caiu de picos perto de 180 exahashes pra algo entre 60 e 80 exahashes.
Mesmo assim a rede se recuperou muito rápido. Os mineradores se mudaram pra lugares com energia mais barata ou mais disponível, principalmente Texas, Cazaquistão, Canadá, Rússia, Paraguai e outras regiões com energia ociosa ou condições favoráveis. No fim de 2021 o Bitcoin já tinha passado o recorde anterior de hashrate, e a rede ficou mais distribuída geograficamente do que era antes da proibição. Anos depois, parte da mineração voltou discretamente pra regiões da China onde a eletricidade continua barata, apesar da proibição oficial.
As estimativas atuais pra 2026 mostram os Estados Unidos com a maior fatia, algo em torno de 35 a 40 por cento do hashrate global, depois a Rússia com cerca de 16 por cento, a China ainda contribuindo com 10 a 12 por cento por vários meios, e partes relevantes no Cazaquistão, no Canadá, no Paraguai e em outros lugares. O hashrate total fica perto ou acima de 900 exahashes por segundo. Os mineradores seguem correndo atrás da eletricidade mais barata do mundo, muitas vezes de fonte renovável ou subutilizada de alguma outra forma.
É por causa dessa mobilidade que o Bitcoin consegue contornar restrição de energia do mesmo jeito que a internet contorna tentativa de censura. Nenhum governo sozinho controla o mercado global de energia, nem consegue obrigar todas as jurisdições a cooperar.
Quando eu junto tudo isso, a ideia de vários sistemas concorrentes tipo Bitcoin usando o mesmo algoritmo de hash começa a me parecer uma extensão natural tanto do design do Bitcoin quanto do pensamento do Hayek. Teria uma seleção contínua, feita pelo mercado, das melhores propriedades monetárias, e a captura centralizada via política energética ficaria bem mais difícil. Ao mesmo tempo, a chain maior e mais segura provavelmente continuaria dominante, porque as concorrentes menores seguem mais expostas ao risco de 51 por cento até aumentarem bastante o próprio hashrate.
A competição já existe no espaço mais amplo das criptomoedas, com forks e projetos alternativos de proof-of-work, e o mercado recompensou a chain com o histórico de segurança mais forte e as propriedades monetárias mais claras. Colocar mais competição deliberada entre sistemas no estilo Bitcoin poderia fortalecer a resiliência do ecossistema como um todo sem quebrar os incentivos que fazem o proof-of-work funcionar.
Eu fico voltando no ponto do Adam Back sobre sistemas ingovernáveis. Os protocolos que tratam tentativa de controle como dano e encontram um caminho em volta parecem durar. Num mundo com várias versões concorrentes do Bitcoin essa capacidade de contornar poderia ficar ainda mais forte. Os governos continuariam tentando influenciar o uso de energia nos seus territórios, mas mineradores e usuários teriam mais opções, seja mudando de lugar, seja mudando de chain.
O Hayek acreditava que a competição ia produzir dinheiro melhor porque os emissores teriam um incentivo forte pra manter confiança e valor. O Bitcoin já mostra parte desse princípio contra o sistema fiat. Estender uma competição parecida entre variantes do Bitcoin poderia levar a mesma lógica mais pra dentro do próprio dinheiro descentralizado.
É isso que está na minha cabeça desde que li aquele post. Quando junto a segurança baseada em mercado do proof-of-work, as evidências reais de eventos como a proibição na China e a visão do Hayek de moedas concorrentes, me parece que tudo aponta pra um futuro mais robusto pro dinheiro sólido. Estou curioso pra ver como essas ideias vão se desenvolver conforme o ecossistema evolui.
Referências
- Post do Adam Back no X: x.com/adam3us/status/2076924769782411736
- Reportagem da Reuters sobre a retomada da mineração de Bitcoin na China (2025): reuters.com/world/asia-pacific/bitcoin-mining-china-rebounds-defying-2021-ban-2025-11-24
- Artigo do Swan Bitcoin sobre a Grande Migração de Hash Rate de 2021: swanbitcoin.com/industry/the-great-hash-rate-migration-of-2021-sam-callahan
- Cobertura da CNBC sobre a recuperação do hashrate do Bitcoin após a proibição na China (2021): cnbc.com/2021/12/10/bitcoin-network-hashrate-hits-all-time-high-after-china-crypto-ban
- PDF do Institute of Economic Affairs de A Desnacionalização do Dinheiro, de Hayek: iea.org.uk (PDF, edição de 1978)
- Resumo na Wikipédia de A Desnacionalização do Dinheiro, de Hayek: en.wikipedia.org/wiki/The_Denationalisation_of_Money
- Detalhes dos ataques de 51% ao Ethereum Classic (2019 e 2020): várias fontes, incluindo análise da Bitquery e reportagem da CoinDesk sobre os incidentes de agosto de 2020 envolvendo hashpower alugado e gastos em duplicidade.
- Estimativas atuais de distribuição do hashrate do Bitcoin (2026): Hashrate Index, Compass Mining e relatórios relacionados da indústria mostrando os EUA na liderança, em torno de 35 a 40%, seguidos por Rússia, China e outros.