Passei os últimos seis anos tokenizando coisas. Uma moeda nacional, derivativos de hashrate de Bitcoin, áreas de floresta protegida, stablecoins europeias, infraestrutura de mineração. No caminho aprendi que a parte mais difícil da tokenização nunca é o smart contract, é tudo o que fica em volta dele.

O mercado de tokenização de RWA (Real-World Assets, ou ativos do mundo real) está chamando muita atenção, e com razão. Mas depois de entregar vários projetos de tokenização em ambientes regulatórios bem diferentes, quero dividir algumas lições práticas que quase não aparecem nos painéis de conferência e nas threads do Twitter.

BRZ: tokenizando uma moeda antes de existir playbook

Quando lançamos a stablecoin BRZ no Transfero Group, no começo de 2019, não existia framework pro que a gente estava fazendo. Não tinha MiCA, não tinha orientação regulatória clara pra stablecoin no Brasil. Fizemos o deploy no Ethereum porque era a única opção viável na época, e fizemos sabendo desde o primeiro dia que ia ser preciso ser multi-chain, mesmo com o mundo multi-chain que a gente conhece hoje mal existindo.

O token em si foi a parte fácil. Um ERC-20 colateralizado em fiat 1:1 com o real, cada token lastreado por reservas mantidas numa instituição autorizada pelo Banco Central do Brasil. A arquitetura do smart contract (mint, burn, controle de acesso baseado em papéis) era Solidity sem mistério.

Difícil era todo o resto.

Tivemos que construir o modelo operacional inteiro do zero. Como conciliar em tempo real o supply de tokens on-chain com as reservas em fiat off-chain? Como lidar com resgate quando os parceiros bancários funcionam em horário comercial brasileiro e a blockchain nunca dorme? Como integrar com exchanges que têm, cada uma, seu padrão de API, seus requisitos de listagem e suas expectativas de compliance?

Conforme o cenário multi-chain cresceu, fomos pra Algorand, pra Solana (bem cedo) e, com o tempo, pra 16+ chains. Cada deploy era um miniprojeto: relação nova com a foundation, integração técnica nova, otimização de gas e fee nova, listagens novas em exchange. A gente montou um playbook repetível, mas cada chain tinha suas surpresas.

Além do token, construímos uma plataforma de trading quantitativo com suporte a 69 algoritmos de market-making e 24 estratégias de investimento, que mais tarde passaram a alimentar o fundo da Transfero. Compliance era uma preocupação constante, e a gente tratou disso com uma combinação de parcerias com exchanges e um processo de resgate operado por parceiros regulados no Brasil.

A lição do BRZ, pra mim, é que tokenizar um ativo do mundo real em escala é muito mais um desafio de operação e compliance do que de tecnologia. O smart contract é talvez 10% do trabalho. Os outros 90% são custódia, conciliação, integração bancária, alinhamento regulatório e a disciplina operacional pra manter tudo isso rodando de forma confiável.

Alkimiya: quando o compliance (ainda) não trava

Depois da Transfero, eu cofundei a Anicca Research e o Alkimiya Protocol, uma plataforma totalmente on-chain e descentralizada de derivativos de hashrate. A ideia era ambiciosa: criar mercado de capitais pro blockspace, pra que mineradores e validadores pudessem fazer hedge do fluxo de caixa deles com smart contracts bilaterais no Ethereum.

Escolhemos o Ethereum pela liquidez e pela base de traders, mas o ativo subjacente do produto principal era o reward e o hashrate do Bitcoin. Isso gerou uma tensão de arquitetura interessante, porque o produto vivia no Ethereum mas o valor dele vinha da economia de mineração do Bitcoin. Desenhamos o sistema em volta de oráculos federados que puxavam dados dos mining pools, com as posições representadas como NFTs ERC-1155 e o settlement acontecendo por meio de tokens temporários que a gente chamou de Silica.

Foi um projeto em que aprendi muito. Levantamos US$ 7,2M com 1kx, Dragonfly, Coinbase Ventures, Circle Ventures e outros, e acabamos lançando na mainnet do Ethereum e na L2 Base.

Uma coisa deixou a Alkimiya muito diferente do BRZ: naquele momento do mercado, compliance não era uma restrição que travava protocolo DeFi. A gente conseguia focar quase só em design de produto e mecânica de mercado, sem precisar atravessar o labirinto regulatório que dominava o mundo das stablecoins.

Essa janela está fechando. Conforme a regulação alcança a DeFi, e ela vai alcançar, as lições de quem construiu ativo tokenizado em conformidade (como o BRZ) vão ficar cada vez mais relevantes, inclusive pra protocolos que nasceram no mundo permissionless.

Preservaland: tokenizando o que não dá pra tocar

A Preservaland levou a tokenização pra um lado completamente diferente. Tokenizamos áreas de floresta preservada no Brasil como NFTs no Ethereum e na Polygon. Cada token carrega um NFT e serve como compensação ecológica: empresas e pessoas podem compensar o próprio impacto ambiental adquirindo tokens vinculados a áreas protegidas.

Por lei, essas áreas de floresta não podem ser exploradas comercialmente. Mas pelo nosso sistema elas podem ser monetizadas com fins de conservação. O “ativo real” que lastreia o token é um pedaço físico da Amazônia ou da Serra da Bocaina, e não um instrumento financeiro.

O segredo estava no backend: monitoramento por satélite integrado ao SICAR, o cadastro ambiental do governo, e ao Global Forest Watch pra verificar que as áreas de floresta são reais, protegidas e íntegras. A blockchain dá a camada de propriedade e negociação, mas a confiança vem da infraestrutura de verificação off-chain.

Esse projeto reforçou um princípio que eu considero central: na tokenização de RWA, o token só tem a credibilidade do vínculo com o ativo do mundo real que ele representa. Se o seu mecanismo de verificação é fraco, o token não vale nada, por mais elegante que seja o smart contract.

EURQ com a Quantoz: multi-chain bem feito com LayerZero

Mais recentemente trabalhei com a Quantoz na stablecoin EURQ, um token atrelado ao euro que precisava ser multi-chain desde o começo. Eles escolheram a LayerZero como infraestrutura cross-chain, o que trouxe alguns desafios técnicos interessantes.

Começamos com um ERC-20 padrão, mas fazer o deploy via LayerZero exigiu modificar o contrato do token, fazer o redeploy e construir a infraestrutura pra suportar o esquema de mint-and-burn da LayerZero. Era diferente da abordagem lock-and-mint que a gente tinha considerado no início, e essa escolha fez diferença, porque o mint-and-burn cumpria integralmente o framework regulatório e mantinha a contabilidade de supply limpa entre as chains.

Também operamos como uma das duas DVNs (Decentralized Verifier Networks) exigidas na configuração inicial da LayerZero pra aprovar transação. O projeto andou rápido, mas passou por escrutínio: fizemos uma auditoria completa e fomos aprovados.

A experiência da EURQ mostrou o quanto o cenário de deploy multi-chain amadureceu desde os primeiros dias do BRZ. Mas também mostrou que, mesmo com infraestrutura melhor, os detalhes regulatórios e operacionais continuam pedindo atenção cuidadosa e mão na massa.

CS Digital: quando tokenizar não faz sentido

Nem toda ideia de tokenização deveria virar token.

Quando fundamos a CS Digital, uma empresa de mineração de Bitcoin, a gente chegou a estudar vender mineração como serviço num formato tokenizado, pra deixar hashrate acessível globalmente por meio de tokens. Com o meu histórico na Alkimiya, a gente sabia que tinha interesse de mercado.

Mas quando consultamos os advogados, a resposta foi clara: um produto de mineração tokenizado, amplamente disponível e distribuído globalmente, quase com certeza ia bater de frente com regulações de valores mobiliários em várias jurisdições. O produto era viável, o caminho regulatório pra tokenizar não era.

Não fizemos.

Acho que essa é uma lição que o espaço de RWA precisa ouvir mais vezes: só porque você pode tokenizar uma coisa não quer dizer que deveria. A tecnologia é permissionless, a lei não.

O fundo que continuou tradicional

Há pouco tempo uma empresa me procurou pra ajudar a tokenizar um fundo de investimento. Depois de bastante análise, chegamos numa conclusão que surpreendeu o pessoal: o caminho mais sensato era estruturar o fundo como um veículo regulado tradicional e tokenizar só as cotas.

A tentação era construir o fundo inteiro on-chain, um fundo indexado, totalmente transparente, totalmente componível. Fica lindo num pitch deck. Só que na prática isso traz desafios regulatórios que, se não estiverem perfeitamente alinhados entre jurisdições, podem tornar a estrutura inteira ilegal.

Um fundo on-chain que opera fora do perímetro regulatório está fora de conformidade, por mais inovador que pareça. E não-conformidade não escala.

A abordagem híbrida, com estrutura de fundo tradicional e cotas tokenizadas, te dá os benefícios da blockchain (propriedade fracionada, distribuição programável, transferibilidade global) sem quebrar o arcabouço regulatório. No palco é menos empolgante, mas tem muito mais chance de sobreviver ao contato com o regulador.

O que mudou: IA, ferramental e o custo de construir

Uma coisa que mudou muito desde que construímos o BRZ e a Alkimiya é o ferramental de desenvolvimento e auditoria.

Naquela época a gente gastava bastante dinheiro em auditoria de smart contract, e o processo era lento. Hoje ferramentas como o Foundry (Forge), pra desenvolvimento de contratos EVM, e ferramentas de programação assistida por IA, como o Claude Code, encurtaram muito os ciclos de desenvolvimento. Dá pra escrever, testar, fazer fuzzing e pré-auditar contratos mais rápido do que nunca.

Isso não elimina a necessidade de auditoria formal, mas acelera tudo em volta dela. Você pega mais problema mais cedo, itera mais rápido e chega na auditoria com o código mais limpo.

Pra quem está construindo infraestrutura de tokenização hoje, a vantagem de ferramental em relação a três anos atrás é enorme. Aproveite.

A lição de verdade: a regulação é o produto

Depois de seis anos e vários projetos de tokenização em classes de ativos, jurisdições e ambientes regulatórios diferentes, o padrão que eu vejo é claro:

O maior risco em tokenização de RWA é regulatório, e não técnico.

A tecnologia funciona. O Solidity está maduro. A infraestrutura multi-chain (LayerZero, Wormhole, bridges nativas) está pronta pra produção. Existem soluções de custódia, e os oráculos são confiáveis. As ferramentas de desenvolvimento assistidas por IA deixam a construção mais rápida e mais barata do que nunca.

O que ninguém resolveu ainda é a colcha de retalhos regulatória global. O MiCA é um começo na Europa. O Brasil tem um framework próprio em evolução. Os EUA continuam fragmentados, e a Ásia varia de país pra país.

Os melhores projetos de tokenização de que eu participei têm uma coisa em comum: empurraram os limites regulatórios o suficiente pra provar o que dá pra fazer, mas nunca a ponto de quebrar a lei. Trabalharam com o arcabouço regulatório, em vez de dar a volta nele.

Tokenizar ativos do mundo real é uma oportunidade enorme. Mas os times que vão ganhar são os que entendem como construir modelos operacionais em conformidade, ligando o mundo on-chain ao off-chain, e não os que têm os smart contracts mais espertos.

Eu sei disso porque venho construindo essas pontes desde 2018.


Roberto Santacroce Martins é arquiteto de blockchain e executivo de tecnologia baseado em Madrid. Projetou a stablecoin BRZ (maior stablecoin não-dólar globalmente), co-fundou o Alkimiya Protocol (US$ 7,2M levantados) e atualmente opera a Santacroce Tech. Constrói no espaço cripto desde 2011.